Setembro de 1941



Ser ferroviário conduzia então a deambulações do agregado familiar por alegados imperativos profissionais, inquestionáveis, para sítios inóspitos ou menos agradáveis. Um filho de ferroviário sofria inevitavelmente as consequências.
 Certo é que por esta altura estava já há alguns anos na Guia - Oeste, não longe de Monte Real para ser mais facilmente localizável, depois de ter passado por Monte Novo de Palma, de extensos arrozais circundantes e ainda não desinfestados, onde tive a oportunidade de apanhar a minha primeira dose de “sezões” que as estadias nas plagas africanas haviam de fazer recapitular na versão mais erudita de paludismo ou malária.

No entretanto, fui crescendo com umas sonecas na tarimba que o meu pai tinha na estação; com as deslocações em triciclo natalício propulsionado por ele com uma vara bifurcada na ponta, quando do seu regresso a casa; toureando com a bandeira vermelha do chefe da estação o Pinóquio - que era um bode mascote e acompanhante como um cão -  do Sr Raul Tomé Feteira, administrador da fábrica de vidro da família que ali existia e era o principal empregador; aprendendo a dactilografar nas máquinas HCESAR do escritório da fábrica; visitando o Chico Limador que na serração do Sr Serra afiava os dentes das serras – digo assim de propósito – onde apreciava a pirotecnia resultante, etc.
Criando amigos, especialmente adultos e brincando pouco. Amigos que haveriam de me aparecer em Lisboa, uns bons anos mais tarde, voltando a oferecer-me, como na altura, bengalas, malhas e pisa papéis em vidro, agora com o meu nome e funções lá dentro. E a pedir-me ajuda para que houvesse água corrente na Guia-Estação, o que se conseguiu de maneira simplista.

A fábrica de vidro tinha, honra lhe seja feita, um bairro operário, e durante tempos vivemos numa dessas casas.
Esta Guia – Estação era um núcleo habitacional centrado na estação de caminho de ferro como o nome indica, na fábrica de vidro e na serração, afastado mais de um quilómetro do núcleo principal situado sobre a estrada nacional. Aqui, estava a Escola com as outras estruturas normais para a época: comércio, farmácia, igreja e alguma indústria relacionada com os pinheiros que povoavam aquelas terras em sequela do plantio estimulado por El-Rei D.Diniz - mesmo na ausência dos subsídios europeus - e ajudavam há séculos a conter o avanço das dunas que não estavam longe.

Não havia abastecimento público de água (como se infere atrás) ou luz nem, evidentemente, saneamento básico. As tabernas abundavam numa e noutra das partes.
Fui para a escola, lá em cima, onde me esperava o saudoso professor Roldão e mais uns trinta candidatos masculinos à literacia. Por questão económica, ecuménica e didáctica habitual na época, as quatro classes estavam juntas, com efectivos que iam diminuindo com a subida de classe.
Na parede da frente, um crucifixo e as fotografias do Senhor Presidente da República e do Senhor Presidente do Conselho; na do lado direito, mapas diversos sendo que um, destacado, era da Europa  com as “nossas possessões “em cima, demonstrando comparativamente a vastidão do nosso Império; na da esquerda havia as janelas sobre a estrada nacional que pouco ruido trazia à concentração dos estudos. Não havia espaço de recreio.

Levávamos o almoço num cestinho, aos sábados tratávamos da limpeza da sala e atestávamos de água o depósito de zinco que ali havia com as bilhas de barro que íamos encher numa nascente de água salobra que a natureza generosamente colocou à nossa disposição num pinhal próximo. E nós agradecíamos nos dias quentes a sua infinita bondade.
Tinha um companheiro na deslocação diária para a escola, o Fernando que, de calções de cotim no inverno frio que pintava com o branco da geada a carrasca que encontrávamos no caminho, competia comigo a atravessar poças de água: eu com o luxo de uns botins de borracha e ele descalço, rindo os dois igualmente com os efeitos obtidos. 

Não despertei na altura para a incongruência entre aquele tal mapa e estas situações de precariedade.

O professor Roldão regia com maestria e aspereza aqueles quatro naipes. Lembro-me de ter chorado ao vê-lo bater com a vara de três palmos de bambu nos calções enregelados do Fernando que, chamado ao quadro, errou na aritmética. Lembro-me também de, acorrendo todos às janelas para ver passar uma coluna militar com blindados e tudo, debruçando-se demasiado, se lhe ter soltado o chinó que usava e dos nossos risos ultra contidos como é de calcular.

Anos atrás foi também a altura em que fui assistir pela primeira vez, no armazém de um comerciante local, a uma sessão de cinema que me impressionou vivamente. O empresário de um cinema ambulante deslocava-se de terra em terra com o seu gerador, máquina de projectar e um lençol grande para servir de pantalha, descrevia em voz alta o que se estava a passar e lia para a assistência, maioritariamente analfabeta, os textos intercalares projectados, sobrepondo-se ao pasmo assombrado e geral perante as imagens que eram vistas por olhos assustados.

Recordo-me que os bandidos tinham um esconderijo numa gruta escavada no flanco de um poço (bem visto !...), que o “rapaz” conseguiu libertar a “rapariga”, meter-se com ela num avião que veio a pilotar, libertando-se em voo de um malandro e rival que também conseguiu embarcar, com algumas acrobacias de que resultou este último soltar-se e vir a estatelar-se no mar que sobrevoavam, com aplauso geral do público, colaborante com gritos de aviso para o piloto e que se sentia recompensado do dinheiro gasto com a justiça que assim era feita.
Senti, e não só eu, a dificuldade em entender como é que havia gente que se dispunha a ser actor por uma só vez, ficando logo em cacos. Sim, porque aquilo eram fotografias do homem e dele a cair e havia exemplos lá em casa onde se via bem o relacionamento sempre directo da fotografia com o seu objecto…

Cheguei à escola sabendo já ler e escrever razoavelmente, o que permitiu ir adiantando nas matéria curriculares de modo a, na terceira classe, frequentar já aulas da quarta e nesta preparar – me para o exame de admissão ao liceu que vim a fazer em Leiria, no velho Rodrigues Lobo, com êxito que atinge a minha modéstia.”Oh Braz, és uma fera” disse-me um dos examinadores no final e o “velho” Roldão registou, depois de eu ter respondido a uma pergunta que implicava como resposta correcta e pelos vistos pouco esperada o “nome predicativo do sujeito”, perante os acenos afirmativos do júri. Agora já não sei o que é mas o episódio faz-me lembrar também o Vasco Santana, as tias e o ….esternomastoideu.
No ano seguinte seria ali meu professor, com agrado de ambos.

Usava capa e batina, que os meus pais extremosamente me compraram. Era o único – pelo que fiquei na memória de colegas meus que vim a reencontrar mais tarde e na montra do fotógrafo, no Centro da cidade, onde permaneceu por largos tempos, recordando-me pequenito, com ar de seminarista estranhamente com um catrimpázio de Ciências debaixo do braço. Teria a sua piada e os meus colegas do terceiro ano tentaram frustradamente levar-me como “mascote”numa excursão de fim de ano não sei aonde,o que a minha mãe não consentiu. Entre eles o meu querido e saudoso amigo José Varatojo, futuro engenheiro, reencontrado em Coimbra e bom companheiro por muitos anos de almoços em Lisboa.

Além de que andava sempre economicamente bem vestido, o que era uma das vantagens da indumentária tradicional estudantil…
Vivia com a minha mãe num “quarto com serventia de sala e cozinha” no primeiro andar de um prédio ao lado, que me permitia sair de casa quando tocava a sineta de chamada, escorregando pelo corrimão, como fazia à noite quando a fanfarra do Regimento de Infantaria 7, quase em frente, tocava a recolher e depois desfilava. Gostava do espectáculo, do som e do ritmo. Penso que esse gosto teve efeitos na escolha profissional.
Mereci ali a minha primeira e única negativa: um 9 a desenho no primeiro período, de que me vinguei sete anos depois, em Coimbra, com 19,2 no exame do 7º ano da mesma disciplina, pelos vistos de classificação muito minuciosa. Gostei da vingança porque me lembrava de então ter chorado que me fartei. Por causa de um guache mal aplicado.

No ano seguinte já viria a estar no Liceu da Figueira da Foz e o meu pai colocado em Verride - perto de Alfarelos,  em acomodação de interesses e conveniências: o meu pai procurava diligentemente aproximar-se de Coimbra, por minha causa.
Os dias passaram a começar de madrugada e o comboio a ser o meio de transporte principal e obviamente indispensável, para vários que éramos em circunstâncias análogas.
Pasta de um lado e lancheira do outro, palmilhava-se alegremente a distância ainda apreciável que separava a estação do Liceu; o regresso era um poucochinho mais fácil por ser a descer e a lancheira vir apesar de tudo ligeiramente mais leve, depois de consumido o repasto que continha sobre a mesa de ping-pong, na sala que lhe estava destinada, e onde instalava a lamparina desmontável e a álcool desnaturado para aquecimento da sopa e do bife ou guizado.Tudo se processava com substancial desembaraço, para iniciar a digestão com uma partida a pares ou a singulares na mira dos vinte e um pontos da vitória e para que a mesa recuperasse a sua respeitabilidade funcional.

Eu e o meu pai estabelecemos um acordo pavloviano: por cada muito-bom uma ida ao cinema. Funcionou em várias matinés de domingo no Cine-Parque na Figueira da Foz. A preços acessíveis.

Na altura, o mar na Figueira não estava longe do paredão da “Avenida da torre do relógio”, chegando no inverno a bater ali com violência, levando a areia e deixando suspensa a escadaria de acesso à praia.
As ondas batiam então nas rochas do Forte de Santa Catarina formando um chuveiro que aproveitávamos, eu e os meus companheiros habituais Ramiro e Figueiredo, instalados num dos patamares circundantes, para um banho refrescante em tardes de calmaria, antes do regresso a casa.

Verride fica no cimo de um monte, enquanto cá em baixo corre, lá longe, o Mondego, junto à Ereira e a Montemor-o-Velho, perto da minha casa de então um dos seus afluentes –o Anços- e mesmo nas traseiras a linha de caminho de ferro.
Tive de afastar dos sobressaltos das primeiras noites a  ideia de que o comboio  atravessava a casa.

Foram retomados os candeeiros a petróleo, mas houve melhorias no saneamento básico.

Lá em cima passava a estrada nacional, havia electricidade, um clube com um rádio, uma mesa de ping-pong e vários amigos, todos disponibilizando as suas potencialidades aos domingos, sendo que o que era exigido ao rádio era o fornecimento dos relatos de futebol ao encontro das nossas ansiedades clubistas.

Para usufruir destes bens, no entanto, era-me necessário subir uma vereda na íngreme encosta, também córrego em dias de chuva, o que uma vez me conduziu a uma situação interessante. Porque a minha caminhada se fazia por um caminho bastante mais curto que a estrada de ligação normal, quase a corta - mato, que tinha sido aberto afastando pedras e pedregulhos com os quais e os retirados das terras contíguas para cultivo foram feitos os  muros que o ladeavam, julguei uma vez ver uma forma singular num desses pedregulhos. Atirado violentamente ao chão, abriu-se em dois exemplares perfeitíssimos de moldes de um fóssil marinho, animal de muito apreciável dimensão.
Tinha feito uma descoberta interessantíssima que me levou e a dois amigos a quase desmontar os muros à procura de outros parentes e com a ajuda profissional do meu pai a fazer a sua expedição para o Liceu de Coimbra, na altura chamado de D. João III e que entretanto tinha passado a frequentar. Entregues ao sector de Ciências Naturais, foram ali classificados e expostos para honra da História e da Ciência, demonstrando que o mar tinha andado pelos locais de origem, a umas boas dezenas de metros de altitude, ou uma convulsão tectónica tinha levado fundos marinhos até àquele patamar. Francamente não me recordo das conclusões, se as houve na altura.

Dado que no Liceu da Figueira apenas eram leccionados os três primeiros anos, tive de mudar de novo, desta vez, como já referido, para Coimbra, naturalmente.
Isto aconteceu exactamente no ano em que deixou de fazer-se exame de 1º ciclo no 3ºano passando para o 2º, já ultrapassado, vindo a confrontar-me mais tarde com a experiência de um exame, no 5º ano.
Entretanto o meu pai foi precursor naquela planície mondeguina de uma coisa que nunca ali tinha sido vista: a cultura de tomate de forma um tanto extensiva para a zona (sete hectares…), habituada a ver arroz ou milho. De certo modo correspondendo a um convite dos gestores de uma fábrica de massa de tomate, nova, instalada em Taveiro com a tecnologia italiana imperante na altura. Já se conheciam por o meu pai fazer a mesma cultura anos antes no campo da Golegã, no seu esforço permanente para arredondar a conta bancária que o seu vencimento pouco guarnecia, e na baixa do Mondego não estar suficientemente desenvolvida a cultura da matéria prima para o abastecimento razoável da fábrica.

Era assim que durante boa parte do ano pouco dormia após as suas doze horas de serviço, das quais só duas eram extraordinárias e pagas como tal “porque a CP estava em dificuldades”e o “esforço” era compulsivamente repartido entre o empregado e, alegadamente, a empresa.
Em Agosto, mês central da colheita, fui uns dias para Monte Real com os meus avós e depois para Pombalinho. Na altura, as estações da CP, pelo uso do telefone, trabalhavam também como via para telegramas endereçados a povoações vizinhas que serviam e que um funcionário iria entregar ao destinatário.
Por este modo recebi a comunicação de que o meu pai tivera um acidente e era sugerido o meu regresso a casa, onde o vim encontrar com uma perna partida e um traumatismo craniano, ambos com substancial gravidade mas de vértice já ultrapassado.
Foi um choque para mim e um segundo factor de decisão para opções profissionais.


Em boa verdade aí terei decidido o que viria a pôr em prática três anos depois: haveria de encurtar o tempo de certo modo imperativo de esforços financeiros originados por mim que o levavam àquelas actividades extra-profissionais. É que a situação resultara de um acidente em que adormecera ao lado do motorista da camioneta de transporte de tomate em regresso de Taveiro, que por contágio também adormeceu numa estrada em talude e embateu com violência num dos choupos que ladeavam a estrada mas que teve a bonita atitude de evitar que a viatura rebolasse pela encosta, com efeitos seguramente mais gravosos. 


    Manuel da Costa Braz





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